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Câmara Municipal de Ilhéus

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Primeira audiência sobre a avenida mostra que há projetos e ideias para a Soares Lopes; o que falta mesmo é concluí-los

28/08/2021 às 08h11

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Em 1985, a avenida Soares Lopes, em Ilhéus, iniciou um dos mais importantes processos de transformação urbano e paisagístico que se tem história no município. A proposta era executar um projeto com referência urbanística internacional e o artista plástico Roberto Burle Marx, já conhecido por ter introduzido o paisagismo modernista no Brasil, foi contratado para assinar o conceito que transformaria a artéria em uma valorizada área de lazer e entretenimento. Grandiosa em sua extensão e conduzida apenas com recursos próprios da Prefeitura, a obra parou e o projeto jamais foi concluído. Vinte e dois anos depois, em 2007, uma nova tentativa de transformação do principal cartão-postal da cidade foi colocada em prática: o Projeto Orla. A proposta era orientar a gestão das áreas da União, numa parceria com os municípios. Dar aos municípios condição de gestão efetiva destes espaços. Mais uma vez o projeto – até hoje considerado atualíssimo – foi engavetado e a proposta ficou pelo meio do caminho.

“A avenida Soares Lopes sempre foi foco de discussões, de debates, de interesses e de pressões, muitas pressões”, reconheceu ontem (27) a arquiteta e urbanista Marilene Lapa, ao participar das 1ª. Audiência Pública promovida pela Câmara para debater alternativas de desenvolvimento para a artéria. “É um processo que parece interminável”, lamenta. O fato é que uma orla de 165 hectares, que representa ¼ do tamanho do Central Park, localizado na ilha de Manhattan, em Nova Iorque, poderia já estar sendo o que se previa nos dois projetos esquecidos e abandonados: um lugar sustentável, espaço de toda a população, bonito de se ver e motivo de orgulho para a coletividade. Hoje, infelizmente, está muito longe disso. A avenida não consegue ganhar uma identidade própria e tem sempre o seu futuro questionado.

Polêmica

Desta vez, os debates recomeçaram a partir da chegada da nova ponte e de uma proposta de ocupação com alguns empreendimentos públicos previstos para a artéria. Diante da polêmica que a iniciativa gerou, o presidente da Câmara, Jerbson Moraes (PSD), criou uma comissão específica para debater as propostas de ocupação e, sobretudo, encontrar na opinião dos ilheenses, o que eles imaginam a respeito do futuro da orla, uma das áreas mais valorizadas da cidade. A comissão é formada por sete vereadores e tem 120 dias para elaborar um relatório que vai dar apoio ao poder executivo para a construção de um projeto da praia, “com ressonância com a vontade do povo”, conforme define o presidente da comissão, vereador Vinícius Alcântara (PV).

“A comunidade não abandonou a avenida. Ela quer usar o espaço. Quem abandonou foram os governos. É preciso parar com especulação. E isso só vai ocorrer quando a gente puder dizer o que quer para ela”, assegura Marilene Lapa. A bióloga Ruth Colares concorda.  “Costumo dizer que a Prefeitura é um Poder Público da não continuidade. A cidade executa um projeto, aí muda a gestão e não se fala mais isso”, lamenta, reconhecendo que, até aqui, já se gastou muita energia e muito dinheiro nas transformações pensadas para a Soares Lopes e ainda há muito a ser feito. “Falta um marco legal. Por que é preciso dizer que não estamos mais começando do zero, é preciso apenas desatar o que está perdido”, defende a bióloga. Para o presidente da comissão da Câmara, a proposta de debater o tema nos próximos 120 dias é justamente essa: deixar da forma mais clara possível as intenções do debate. “Sei que serão, inclusive, intenções contraditórias. Quem queira construir shoppings e quem queira só parque. Por isso é preciso o equilíbrio para atender a todos”, afirmou.

Participação popular

De fato, um destino cidadão e coletivo para a avenida atrai a opinião das pessoas. Uma pesquisa colocada em prática pela comissão busca saber dos ilheenses o que eles pensam sobre a orla. O questionário pode ser respondido de suas formas: virtual (https://forms.gle/8PYmL9NZQptuDA2aA) ou presencial, respondendo a um formulário na recepção da Câmara. A pesquisa terá a duração de 30 dias e, depois, os dados serão compilados para compor o relatório final a ser entregue ao Executivo. Na primeira semana, apenas na ferramenta virtual, mais de 1.300 pessoas já opinaram.

Durante a audiência pública de ontem os participantes chegaram à conclusão de que, para viabilizar o término de um projeto para a avenida é fundamental se pensar em uma Parceria Público-Privada (PPP). Mas alertam: não é privatizar a avenida. É encontrar investidores. Acham, também, que é importante tentar preservar o conceito e a identidade do paisagista Burle Marx, que assinou projetos respeitados no mundo inteiro, dentre eles o Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, e a orla de Santos, em São Paulo. O projeto Burle Marx em Ilhéus é considerado um dos maiores em parques urbanos projetados por ele em toda a sua vida.

Opiniões

Democratizar o debate sobre o futuro da avenida é visto com esperança pela vereadora Enilda Mendonça (PT). “Não se pode pensar mais a avenida como loteamento”, disse. Para o vereador Tandick Resende (PTB), estabelecer o debate, neste momento, é encontrar caminhos para evitar futuros embargos judiciais e processos na justiça. “A discussão poderá produzir a solução que todos esperam”, assegura. Representante da região periférica da cidade, o vereador Sérgio do Amparo (Podemos) entende que a ocupação da avenida deva oferecer lazer democrático, dando oportunidade de utilização de seus equipamentos para toda a cidade e todas as classes sociais. Ele disse que no momento em que se abre o leque de discussão, abre-se, também, a reflexão para falar das pessoas que não têm hoje local de diversão. Para o vereador Aldemir Almeida (PP), pela primeira vez discutir a avenida, como é feito agora, impedirá a reação dos “engenheiros de obra pronta”, acostumados a criticar tudo depois de feito, numa referência às pessoas que sempre opinam sobre as transformações da cidade, sem sequer conhecimento técnico sobre o assunto em pauta.

A arquiteta Taty Bonfim lembra que a cidade deve existir para as pessoas. E destaca que área verde não é área desocupada. Nem pode virar mais um estacionamento, como muitas vezes é opinado hoje. Alan Dick Megi destaca que a iniciativa da Câmara em debater o tema merece todo o respeito da sociedade. E vê o momento como importante para resgatar os projetos,  valorizar a importância da avenida e avançar, oferecendo à população um espaço de lazer que contribua com a melhoria da qualidade de vida dos ilheenses. Superintendente do Meio Ambiente no município, Joélia Sampaio lembra que é preciso apenas encontrar um caminho executável para um projeto e colocar em prática o que está previsto ao longo dos anos.

O fato é que a avenida Soares Lopes volta à pauta de discussões da cidade. Projetos existem. O que de fato falta é concluí-los. Para o bem de todos e como forma de contribuição para a beleza da cidade.